EXCLUSIVO – O aumento da frequência e a intensidade dos eventos climáticos influenciam a forma como seguradoras e resseguradoras passaram a avaliar os riscos. Para mitigar os riscos, especialistas defenderam a maior integração entre ciência, financiamento e instrumentos de proteção para ampliar a resiliência do País diante dos riscos climáticos.
O fato é que é preciso reduzir a lacuna de proteção ainda existente no País. O entendimento é que o seguro pode ocupar um papel mais relevante na mitigação dos impactos econômicos causados por eventos extremos, sobretudo diante do aumento da exposição de pessoas, empresas e governos.
Representando a base científica da discussão, José Marengo, Coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Consultor do Painel Consultivo Científico da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), trouxe uma perspectiva dos efeitos das mudanças climáticas no território brasileiro. Segundo ele, os eventos têm apresentado mudanças em frequência, intensidade e distribuição geográfica, criando desafios adicionais para cidades e sistemas econômicos.
“A gente continua observando mudanças e uma aceleração dessas transformações. Essa velocidade é algo que vamos perceber cada vez mais rápido”, afirmou Marengo, ao abordar a evolução dos impactos climáticos e a necessidade de adaptação contínua. Na discussão sobre riscos e financiamento, Marengo destacou que a evolução dos eventos climáticos exige novas formas de mensuração e mecanismos capazes de absorver choques econômicos.
Já o Secretário Nacional de Mudança do Clima, Aloysio Lopes, chamou a atenção para a relação entre adaptação e aumento das incertezas econômicas. Segundo ele, embora existam evidências sobre o avanço das mudanças climáticas, a materialização dos riscos torna mais complexa a tomada de decisões. O executivo ressaltou a necessidade de ampliar o acesso dos diferentes agentes econômicos a mecanismos de proteção e financiamento. “Essa convergência precisa alcançar agentes econômicos e diferentes segmentos da sociedade”, acrescentou.
Do lado governamental, Aoysio apresentou iniciativas em andamento voltadas à adaptação climática, destacando a construção de um plano nacional estruturado em múltiplos setores. “Foi conduzido um plano de adaptação robusto, abrangente e setorial ao longo de quase dois anos e meio. Chegamos a identificar prioridades, ações, metas e indicadores para fortalecer a construção dessa resiliência”, explicou.
Lucca Rizzo, Coordenador-geral de Pesquisa e Líder Especialista em Finanças Climáticas Sênior do iCS, ponderou que um dos pontos centrais da avaliação dos riscos é a necessidade de abandonar modelos reativos e avançar para uma lógica antecipatória de gestão de riscos. A avaliação é que os eventos extremos vêm impondo desafios crescentes para governos, empresas e instituições financeiras.
“Não existe solução de financiamento que não envolva o mercado de seguros”, afirmou Rizzo, ao destacar a relevância do setor no desenho de mecanismos voltados à mitigação de riscos climáticos. A produção e o compartilhamento de dados também são temas centrais do debate. A percepção é de que as seguradoras podem exercer um papel estratégico na geração de informações qualificadas sobre riscos climáticos, contribuindo para modelagens capazes de orientar políticas públicas, investimentos e decisões financeiras.
Exemplos internacionais foram apresentados como referência. Um deles foi a experiência do Caribe, com a criação de uma plataforma regional que reúne seguradoras e bancos multilaterais para resposta rápida a eventos extremos . O Caribbean Catastrophe Risk Insurance Facility (CCRIF SPC) é o primeiro fundo de risco paramétrico regional do mundo. Permite que governos, empresas de serviços públicos de eletricidade/água e o setor pesqueiro do Caribe e da América Central se protejam contra desastres naturais. Limita o impacto financeiro ao fornecer liquidez imediata de curto prazo após um evento desencadeador de desastres naturais.
A iniciativa demonstrou eficiência durante episódios de furacões ao disponibilizar recursos em prazo menor do que estruturas tradicionais de financiamento.
Kelly Lubiato, do Rio de Janeiro
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