Prefeitura de São Paulo adota ferramenta para mapear riscos climáticos

EXCLUSIVO – O setor de seguros e a Prefeitura de São Paulo deram mais um passo em mais uma união público-privado, dessa vez na construção de estratégias de prevenção contra eventos climáticos extremos. Em evento realizado na manhã dessa sexta-feira (12), foi apresentado o estudo “São Paulo mais resiliente às mudanças climáticas”, iniciativa do SindsegSP em parceria com a prefeitura e desenvolvida tecnicamente pela Guy Carpenter.

Embora a presença do prefeito Ricardo Nunes estivesse prevista inicialmente, ele foi representado durante a cerimônia pelo secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, Marcos Monteiro, e pelo secretário municipal das Subprefeituras, Fabricio Cobra Arbex. Já durante o painel de debates, a representação da administração municipal ficou a cargo da secretária municipal das Subprefeituras, Tatiana Robles.

O principal resultado do projeto é uma plataforma tecnológica que cruza bases de dados públicos e modelos de risco para identificar áreas mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, permitindo direcionar políticas públicas e investimentos de maneira mais estratégica.

Ao abrir o evento, a presidente do SindsegSP, Patrícia Chacon, lembrou que o próprio propósito do ecossistema segurador é cuidar das pessoas, do patrimônio e das cidades. No entanto, diante do aumento dos eventos climáticos extremos, tornou-se necessário ampliar esse papel. Ela recordou que o mercado já participa do processo de recuperação por meio das indenizações e das assistências prestadas aos segurados após um desastre, mas destacou que a oportunidade agora é atuar antes mesmo que os prejuízos aconteçam.

Durante sua apresentação, Patrícia explicou que a ideia nasceu de uma conversa com Roberto Santos, presidente do Conselho Diretor da CNseg, sobre como o conhecimento acumulado pelas seguradoras poderia contribuir para tornar as cidades mais preparadas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas.

Ao longo do último ano, representantes da sindicato conheceram de perto a operação da Prefeitura de São Paulo, incluindo os sistemas de monitoramento climático, a gestão dos piscinões, os centros de controle e as equipes responsáveis pelas respostas emergenciais. Em contrapartida, apresentaram ao município como funciona a modelagem de riscos utilizada pelo mercado segurador e de que forma esses dados poderiam ser aproveitados na gestão pública. “Quando colocamos essas informações juntas nasceu uma plataforma tecnológica capaz de mostrar, por quadrantes da cidade, onde estarão os maiores riscos dos eventos climáticos, considerando não apenas o patrimônio, mas também escolas, hospitais e a população”, destacou.

Para Patrícia, o objetivo é fazer com que São Paulo evolua de um modelo focado apenas na reconstrução após os desastres para uma estratégia baseada na prevenção e no planejamento.

Responsável pela elaboração técnica do projeto, o CEO da Guy Carpenter Brasil, Pedro Farme, explicou que um dos maiores desafios foi adaptar uma metodologia tradicionalmente utilizada pelo mercado segurador para atender às necessidades do poder público. Segundo ele, enquanto as seguradoras normalmente analisam perdas econômicas e financeiras, o estudo buscou traduzir esses modelos para avaliar impactos sociais e urbanos. “Construir um modelo voltado para o poder público foi um dos principais desafios. O grande diferencial foi conseguir medir os impactos sociais e compreender como esses eventos afetam diretamente a vida das pessoas”.

Pedro Farme, da Guy Carpenter

Outro aspecto destacado pelo executivo foi a opção por não utilizar apenas históricos de sinistros pagos pelas seguradoras como base para o estudo. Em vez disso, a equipe optou por trabalhar com informações sobre exposição da cidade, permitindo que regiões menos seguradas ou populações mais vulneráveis também fossem consideradas.

Para isso, foram integradas bases públicas do GeoSampa, IBGE, Receita Federal, universidades e centros meteorológicos, além de informações obtidas junto à própria Prefeitura. Todo o modelo foi desenvolvido especificamente para o Brasil, sem adaptações de sistemas estrangeiros.

O resultado é uma plataforma capaz de simular diferentes cenários de risco e projetar como determinadas intervenções, como construção de piscinões, implantação de galerias de drenagem ou criação de áreas verdes, podem reduzir a vulnerabilidade de regiões específicas.

Durante a apresentação técnica, Farme revelou que a cidade foi dividida em quadrantes de um quilômetro quadrado para análise inicial, embora a plataforma permita detalhamento ainda maior. O estudo considera cinco grandes pilares: infraestrutura social, educação, saúde, mobilidade e logística, atividade econômica e vulnerabilidade social.

A partir dessa metodologia, é possível identificar quantos hospitais, escolas, centros de assistência, empresas ou áreas de circulação estariam sujeitos a impactos severos em caso de eventos extremos. Entre os resultados apresentados, a análise indica que dezenas de milhares de estudantes, milhares de leitos hospitalares e centenas de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade encontram-se em áreas classificadas como de risco elevado para alagamentos em cenários extremos.

O levantamento também aponta que, em um evento equivalente ao registrado no Rio Grande do Sul em 2024, considerado estatisticamente um fenômeno de recorrência centenária, os danos materiais apenas na cidade de São Paulo poderiam alcançar bilhões de reais.

As projeções tornam-se ainda mais preocupantes quando incorporados cenários de aquecimento global de 2°C, hipótese na qual as perdas estimadas praticamente triplicam. “O dinheiro investido em prevenção evita múltiplos gastos com reconstrução. Cada real destinado à mitigação pode representar uma economia muito maior no futuro”, observou Farme ao apresentar os resultados.

Prefeitura destaca investimentos em adaptação climática

Representando o prefeito Ricardo Nunes, o secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, Marcos Monteiro, ressaltou que a cidade já desenvolve uma série de ações voltadas à adaptação climática.

Entre elas estão o Plano Diretor de Drenagem, o Plano Municipal de Redução de Riscos, investimentos em contenção de encostas, canalizações, proteção de margens de rios e construção de reservatórios para retenção de águas pluviais. Monteiro informou que mais de R$ 10 bilhões já foram aplicados nessas iniciativas desde 2021, enquanto o orçamento climático da Prefeitura contempla aproximadamente R$ 30 bilhões distribuídos entre diferentes projetos relacionados à sustentabilidade e à resiliência urbana.

O secretário destacou ainda o funcionamento do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), responsável pelo monitoramento em tempo real das condições meteorológicas da cidade por meio de radares, sensores e sistemas digitais.

Na avaliação dele, o compartilhamento de dados com o setor segurador tende a tornar ainda mais eficiente o planejamento das intervenções públicas. “O acesso a essas informações permitirá aperfeiçoar nossos critérios técnicos e tornar ainda mais assertiva a priorização das obras de maior impacto para a cidade”.

Fabricio Cobra Arbex

Também representando a Prefeitura, o secretário municipal das Subprefeituras, Fabricio Cobra Arbex, detalhou o conjunto de medidas executadas para reduzir os impactos provocados pelas mudanças climáticas.

Ele destacou o reforço das equipes de zeladoria responsáveis pela limpeza de galerias, córregos e bocas de lobo, além da realização de obras corretivas em sistemas antigos de drenagem espalhados pela capital. Fabricio lembrou ainda que São Paulo conta atualmente com 58 reservatórios de contenção em operação, além de oito em construção e outros seis em fase de licitação.

Outro eixo importante envolve investimentos ambientais, como a ampliação da frota de ônibus elétricos, projetos voltados ao aproveitamento energético de resíduos sólidos e ações de arborização urbana. Segundo o secretário, aproximadamente 170 mil árvores foram plantadas apenas no último ano, enquanto áreas verdes protegidas passaram a representar cerca de 26% do território do município.

Resiliência exige cooperação entre diferentes setores

Durante o painel que encerrou o evento, mediado pela conselheira de sustentabilidade Denise Hills, o debate girou em torno da necessidade de integrar esforços entre iniciativa privada e poder público.

Tatiana Robles destacou que preparar uma metrópole do porte de São Paulo para enfrentar eventos extremos representa um desafio complexo justamente porque envolve competências compartilhadas. Na sua visão, nenhuma instituição é capaz de enfrentar sozinha os impactos das mudanças climáticas. “É um problema de todos nós e só vamos conseguir resolvê-lo se atuarmos juntos”, firmou.

Ela ressaltou ainda que uma das principais contribuições do estudo está na geração de novos dados capazes de revelar riscos que até então recebiam pouca atenção, como os chamados corredores de vento responsáveis pelo aumento de quedas de árvores em diferentes regiões da cidade. “A cidade sempre se preocupou muito com enchentes e alagamentos, mas agora percebemos que existem novos desafios que também precisam ser enfrentados” lembrou.

Denise Hills, Patrícia Chacon, Eduardo Santos, Pedro Farme e Tatiane Robles.

Uma das falas mais fortes durante o debate ocorreu durante a participação do presidente do Conselho Diretor da CNseg, Roberto Santos. Ao analisar a iniciativa, ele afirmou enxergar uma mudança histórica no posicionamento do mercado segurador. “Pela primeira vez vejo o segurador sair de uma posição reativa para uma atuação verdadeiramente proativa”, pontuou.

Proteger não significa apenas indenizar prejuízos depois que eles acontecem, mas utilizar conhecimento técnico e inteligência de dados para evitar que os danos ocorram. “O seguro vende proteção. E proteger prevendo é algo muito mais avançado”, frisou Roberto Santos.

Roberto defendeu ainda uma aproximação maior entre governos e mercado segurador para ampliar políticas de prevenção e chamou atenção para a necessidade de incorporar a educação ambiental à formação da sociedade. “Assim como discutimos educação financeira, também deveríamos falar em educação ecológica. Tudo começa pela educação”.

Ao longo das apresentações, diversos participantes ressaltaram que São Paulo se torna pioneira ao utilizar uma ferramenta desse porte construída em parceria com o setor segurador. Para Patrícia Chacon, o projeto demonstra que a colaboração entre iniciativa privada e administração pública pode produzir soluções concretas diante de um problema que afeta toda a sociedade.

Na avaliação da presidente da entidade, fortalecer a resiliência climática significa preparar pessoas, empresas e governos para responder de forma mais eficiente aos desafios que já fazem parte da realidade brasileira. “A preocupação é da população, é do mercado de seguros e é do governo. Por isso, esse tipo de parceria tem potencial para transformar a realidade e garantir que o Brasil esteja cada vez mais protegido”.

Nicholas Godoy, de São Paulo

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